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Um olhar para a singularidade

Por Dioneia Gaiardo

Pensar a singularidade é um exercício de ver que “A vida insinua-se de um jeito único na subjetividade de cada pessoa, lugar privilegiado para decifrar os enigmas da natureza (…)”, os enigmas de sua própria natureza, da natureza das coisas e do mundo. Aí, no fenômeno da singularidade, há espaço para o “exótico aparecimento” e quem sabe por esses caminhos possamos acessar alguma identidade, alguma integridade sobre quem somos, um pouco mais leves das bagagens impostas.


Há quem busque comparações e generalizações ao longo da vida, há quem se adapte bem a esse modo de ser e ver as coisas, de ler o mundo através de termos gerais. Há quem se sinta completa ou parcialmente preso por essas tipologias, classificações e diagnósticos e, no entanto, careça de um outro tipo de olhar, o singular, ainda ofuscado, escondido em algum recanto seu ou do mundo, e sabe que algo em si fica sem espaço para transbordar diante de uma sociedade viciada em padrões, muitas vezes camuflados em discursos sobre valorizar a diversidade ou afirmações como “devemos ser diferentes”. Não devemos ser diferentes, já o somos e sempre seremos. Por mais que possamos compartilhar, ainda assim, as circunstâncias e significações são únicas.

Se não nos damos conta disso, o risco é nos tornarmos reféns da produção do igual imposta pelos padrões de normatividade que gera também a necessidade de sermos diferentes. E “essa vida” que nos joga de um lado a outro, que nos suprime em padrões convencionados/impostos é a mesma que nos obriga a sermos diferentes para que possamos, enfim, sermos reconhecidos. Antes ser um desconhecido na multidão, mas que conhece, ao menos um pouco, a si mesmo. Antes perceber que a produção do igual e do diferente está a serviço de mercados extremamente lucrativos – o mercado humano, da mente humana, do corpo humano…


Nesse sentido, a Filosofia Clínica evidencia que “As coisas podem adquirir propriedades diversas no vislumbre das singularidades”. Assim, a carência, o que nos falta, parece-me que é justamente o exercício da singularidade. O olhar extraordinário, surpreso, suspenso, desacomodado, incerto, investigativo, descontente, absurdo, instigante, mágico, ingênuo, a admiração, como diria Gerd Bornheim: “Na admiração, verifica-se um simpatizar, no sentido etimológico da palavra, um sentir unido ao real como uma presença (…) longe de impor-lhe o que quer que seja, o deixa ser em toda a sua dimensão, como plenitude de presença.”

* Texto originalmente publicado na Revista da Casa da Filosofia Clínica. Para edição completa da revista, acessar Revista da Casa da Filosofia Clínica – Editora Pragmatha

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Resenha do Evento da Epoché

Por Dionéia Gaiardo

Na noite do dia 19/01/2023 em uma parceria entre Epoché Filosofia Clínica e Casa da Filosofia Clínica, aconteceu o “1º Encontro Online Epoché: A Prática da Filosofia Clínica” com a coordenação e condução do Filósofo Clínico Fernando Fontoura.
Nessa noite de construções compartilhadas tivemos a honra de ouvir e conversar com o professor Hélio Strassburger, referência em prática clínica no Brasil e porque não dizer, no mundo.


Ele que publicou recentemente o artigo intitulado “Filosofia Clínica e Discurso Existencial” na revista Silex pela UARM, Universidade Antonio Ruíz de Montoya, de Lima no Peru.
Uma das maracas do professor Hélio em sua trajetória tem sido ouvir e cuidar das singularidades postas à margem, internadas, se não em hospitais psiquiátricos, em diagnósticos, tipologias, medicações psiquiátricas que anulam ao invés de revelar as singularidades de cada um.


Em seguida, ouvimos o relato de três alunos do professor Hélio, formados pela Casa da Filosofia Clínica. Fernando Fontoura nos contou como foi importante encontrar a filosofia clínica, em especial o conceito de singularidade e um método que desse conta de fazer essa singularidade aparecer. Fernando agradeceu ao professor Hélio por ter levantado em aula o assunto da antipsiquiatria, o qual estuda e reflete até hoje.


Depois ouvimos Dionéia Gaiardo que contou como foi aprender e descobrir o papel existencial no exercício de ser terapeuta e as marcas da Casa da Filosofia Clínica como o acolhimento do professor Hélio com um abraço na chegada às aulas, o café e os bolos aniversário feitos pelas mãos da Diretora da Casa da Filosofia Clínica e artista plástica , Márcia Baroni.


Por último, ouvimos Miguel Angelo Caruzo, que conheceu o professor Hélio quando este ainda tinha barba preta, enfatizando que sua característica fundamental é o acolhimento com um abraço. Atitude que passou a adotar em seus atendimentos presenciais. Ele ainda ressaltou o caráter emancipatório da Filosofia Clínica, que ocorre tanto com o terapeuta quanto com o partilhante.


A última atividade da noite foi a mesa redonda: O Chão de Fábrica. Um vice-conceito (metáfora) usado por nós filósofos clínicos e filósofas clínicas e que significa a prática da Filosofia Clínica no consultório. A mesa teve a participação de Hélio Strassburger, Fabiano Santos, Paulo Alves Filho, Flora Bonilha, Miguel Angelo Caruzo, Fernando Fontoura, com mediação de Dionéia Gaiardo.


Na conversa foram abordados assuntos caros à prática da Filosofia Clínica tais como as adequações e autogenias (mudanças, movimentos) dos partilhantes, a categoria tempo e seus desdobramentos em clínica, a necessidade da boa redução fenomenológica para que essa singularidade possa aparecer em clínica na versão original de cada partilhante. A conversa seguiu com o tema da aplicação do método da Filosofia Clínica em empresas, experiência compartilhada especialmente pela filósofa clínica Flora Bonilha em sua atuação na área de recursos humanos, além de sua atuação em clínica.


O encerramento da mesa ficou com o professor Hélio que nos ensinou que “Me parece que encerramentos não existem, a vida tem me ensinado, eu tenho aprendido que , que no máximo, a gente coloca uma vírgula para poder seguir por outros caminhos”.


O coordenador da Epoché Filosofia Clínica, Fernando Fontoura e a Diretora da Casa da Filosofia Clínica, Márcia Baroni, agradeceram a presença de todas as pessoas e também as contribuições feitas na “Vakinha” online para o projeto social Altruísmo Eficaz do filósofo Peter Singer.
Fica o desejo e a expectativa do próximo encontro!

CLARABOIA NO TEMPO – Historicizando Momentos

por Ana Rita de Calazans Perine

Redijo essas linhas sob efeito de psicotrópicos pesados. Faço como antídoto, lavagem estomacal redutora de toxinas cotidianamente ingeridas em sociedades insalubres e periculosas para o espírito humano. Esse tem sido o impacto de nosso momento histórico…

Hordas destilando ódio e praguejando sandices aprisionam em si próprios os pais de família, entusiastas profissionais, mães zelosas, amigos atentos, filhos dedicados. O medo abissal anima a fúria que aplaca buscas, fatos, verdades. Anestesia mentes, rouba alegrias, convulsiona relações, petrifica olhares, converte em geleiras corações. Ofusca, mina, aborta perspectivas. Impede que o sol nasça no horizonte.

É como se estivéssemos atados às nossas camas, olhando fixamente para o teto, na esperança de alcançar uma claraboia que permitisse do angustiante claustro nos livrar, ampliar olhares e contemplar…

Corpos fatigados não dão conta de quebrar a maldição do enrijecimento muscular que provoca dor e suspende o sonhar. Dia atrás de dia subjetividades reprimidas fatiam o tempo, absorvem a imposição de papeis que representam, obliteram voz, presença, espaço e momentos.

As cenas não se desenrolam, ações se avolumam, a vida não transcorre… Alheio às suas próprias verdades ou mesmo as reconhecendo, sem força de expressá-las (o que costuma causar ainda maior sofrimento), o ator se recolhe: impossibilitado, violado, vendido.

Não há distopia de plataformas de streaming capaz de superar as que nos atravessam diariamente… Entram em nossas vidas e clínicas sem pedir licença, nos esbofeteiam com agruras de estrondosos silêncios.

Onde falta palavra, costuma sobrar texto… Aí chegamos ao estado, como solo fértil, capaz de nutrir e possibilitar o saudável germinar de indivíduos, organizações e comunidades. Quanto mais distópico os tempos, mais utópicos deveriam ser os momentos…

Para sanar dor, recuperar mobilidade, impostar voz, permitir que ator no centro do palco se apresente em livre expressão, liberto de representações, seu modo próprio há de ser detectado, reativado e experimentado.

As maneiras singulares de lermos o mundo e a nós mesmos e de transitarmos por ambos podem nos brindar com potentes elixires. Bem dosados, aptos a equalizar cor, brilho e luminosidade na medida exata de nossas necessidades, nos permitem trafegar mais leves e plenos nossos dias.

São remédios existenciais que desopilam, desintoxicam, nos fazem resgatar alegrias e prazeres esquecidos. Levantamos de camas, transpomos claraboias, acessamos telhados e neles, sob céus estrelados de agradáveis noites de verão, sem pressa, cuidadosamente revisitamos o ontem, vivemos o hoje e descortinamos o almejado amanhã.

Em desdobramento do metaforicamente exposto, na tentativa de auxiliar o ponderar…

Na última década complexos e multifacetados componentes econômico-sociais e político-ideológicos têm adquirido maior relevância ao situar e determinar traumas, antes episódicos, agora seriais: no trabalho, nas famílias e na sociedade. Essas feridas na memória e no conceito de identidade do indivíduo reverberam na frequência de esvaziamento e fragmentação do eu, aqui traduzido como rapto da “vontade de poder ou potência”, segundo Friedrich Nietzsche, principal força motriz em seres humanos.

Além de mobilizar serviços de acolhimento / apoio, campanhas em defesa da vida e investimentos em pesquisas na área da saúde mental, o fato aquece ainda mais a já frenética indústria farmacêutica: de um lado, assertiva no lobby junto a OMS (Organização Mundial de Saúde) e a CID (Classificação Internacional de Doenças), hoje na 11ª revisão; de outro, sempre pronta a nos brindar com o que há de mais moderno nas suas unidades fabris. Quiçá sejam criteriosamente reguladas e embasadas por pesquisas clínicas sérias, que não prescindam da legitimação e escuta das subjetividades em questão.

Diante de acentuadas probabilidades em impor consensos, que nos acautele a indagação de Michel Foucault (França, 1926 – 1984 / filósofo, crítico literário e professor da cátedra História dos Sistemas do Pensamento): “Por que foi que fizemos dos manuais de diagnósticos a bula da vida?”

Paulatinamente a sociedade parece um pouco mais alerta. Ela já expressa a preocupação em ser a CID-11 absorvida pelos profissionais de saúde como base de orientação para identificar tendências e estatísticas na área e não para submeter seres humanos a pecha de rótulos.

Do famoso grito por mais vida de Antonin Artaud (França, 1896 – 1948 / artista plástico, poeta, ator, dramaturgo e pensador) tido como louco e internado por nove anos: “…para cada cem classificações, onde as mais vagas são também as únicas utilizáveis, quantas tentativas nobres se contam para conseguir melhor compreensão do mundo em real, onde vivem aqueles que vocês encarceraram?”

Nessa hermenêutica compreensiva dos fenômenos que nos chegam e invadem, que monitora prejuízos, não teme dissensos e abraça o diverso, enquanto meta terapia que parte da e se desenvolve na escuta atenta das múltiplas linguagens da singularidade que acolhe, a Filosofia Clínica segue tendo muito a contribuir e aprender. De certo modo, claraboia no tempo de interdições de vidas, consciências e subjetividades… Que nesse exercício possamos movimentar o melhor de nós e crescer não só como profissionais que estamos, mas como humanos aprendizes que somos.

(texto origianlmente publicado na Revista da Casa da Filosofia Clínica em https://casadafilosofiaclinica.blogspot.com/2022/12/revista-casa-da-filosofia-clinica-ed03-verao-2022.html )

EXPERIÊNCIA COMO PARTILHANTE EM FILOSOFIA CLÍNICA

Por Fernando Fontoura

Desde minha juventude que vou a terapeutas. Na própria escola já ia constantemente ao Serviço de Orientação Escolar conversar com uma psicóloga sobre questões escolares, de inclusão/exclusão, entre outras. Via nestes encontros uma boa possibilidade de pensar a mim mesmo em uma perspectiva mais ampla.

Quando já estava no esporte como competidor, procurando subir no ranking estadual ou nacional, via a importância de uma melhor concentração ou “força” mental. Naquela época não havia especialistas em psicologia esportiva ou algo parecido, então procurei psicólogas ou psicólogos “normais” para tentar me conhecer melhor no aspecto mental.

Depois, na vida adulta, ia a psicólogos ou psicólogas a respeito de questões de casamento ou filhos ou relações de trabalho. Passei minha vida adulta também, em grande parte, fazendo terapia, sempre com psicologias de várias linhas (até de vidas passadas fiz uma época).

Mas quando iniciei minha terapia com um filósofo clínico, em meu pré-estágio – antes de iniciar atendimentos em regime de orientação – que percebi a diferença abissal da terapia da filosofia clínica para as outras que fiz durante grande parte de minha vida.

Não vou esgotar aqui os âmbitos dessa diferença entre as terapias, mas vou apenas indicar quais foram, no meu caso.

A precisão é uma delas. O autoconhecimento que proporciona a filosofia clínica é muito mais preciso, cirúrgico. Por ela ter uma visão abrangente do “mapa” de minha estrutura interna e dos meus modos de ser e pensar, ela consegue ser mais analítica e diferenciar caminhos e limites de forma muito mais clara.

Essa precisão no autoconhecimento é em função de ela descrever com mais minúcias minhas relações comigo mesmo, com os outros e com o mundo. Como assim? Sempre que nos relacionamos com alguma coisa ou com alguém, o fazemos de uma certa forma, com certos elementos e isso define uma certa qualidade dessa relação. Não basta dizer que estou em um “relacionamento tóxico”. A filosofia clínica vai compreender descritivamente quais são os elementos em jogo de minha estrutura interna que estão nesse “relacionamento tóxico”. Isso dá mais precisão aos fatores determinantes de melhora nessa relação. Não há tentativa-e-erro.

E neste sentido, outro aspecto diferenciado da filosofia clínica frente a outras terapias, é o tempo. Com uma análise mais detalhada, mais precisa, o tempo de terapia ou de cada assunto do qual levamos em terapia é encurtado. Às vezes vejo pessoas dizendo que ficaram 5, 10, 20 ou até mesmo 30 anos em outras terapias para “resolver” de forma ampla alguma ou outra questão.

Eu, particularmente, faço minha terapia pessoal semanalmente. Não abro mão. Terapia, para mim, não é somente quando tenho “problemas”, mas é uma atividade de autoconhecimento ampla em todas as fases de minha vida, das piores às melhores. Por isso, eu posso até passar 30 anos fazendo terapia com a filosofia clínica, mas não será para resolver um ou outra questão, mas por ela ampliar sistematicamente e de forma robusta meu conhecimento sobre mim. O fato de ela ser mais precisa e, por isso, muitas vezes, mais rápida na resolução de algumas questões existenciais, não faz da terapia algo dispensável rapidamente. Embora, como terapeuta, eu experiencie a rapidez da filosofia clínica em muitos partilhantes. Eles expressam exatamente isso, “Nossa, fiquei anos e anos em outras terapias e não me conheci tanto quanto aqui em bem menos tempo”.

Obviamente que o tempo terapêutico é o tempo de cada um, mas a prática enquanto partilhante da filosofia clínica me mostrou como esse tempo subjetivo é compartilhado com o tempo da metodologia e que essa mescla faz dessa experiência terapêutica algo completamente diferente do tempo das outras terapias.

A ajuda que a filosofai clínica proporciona não é somente intelectiva, mas existencial diretamente nos modos de ser que temos, tanto de pensamento quando de comportamentos. Ela não “tapa o sol com a peneira” nem “coloca panos quentes”. Pela sua visão ampla de nossa estrutura interna e de nossos modos de ser e pensar, qualquer mudança terapêutica que aconteça nos movimenta de forma robusta, independente do tempo de cada um.

Não há comparativos dos benefícios da filosofia clínica para com as outras formas de terapia, é o que percebo e experencio enquanto partilhante. Em minha vida, tenho muito menos tempo como partilhante da filosofia clínica do que já tive como paciente de todas as outras linhas de psis que já fiz, mas meu ganho com autoconhecimento e autogerenciamento de meus modos de ser é absurdamente mais amplo e robusto com a filosofia clínica.

DOIS MUNDOS NA ESTRUTURA DE PENSAMENTO

Por Fernando Fontoura


Platão estava certo, pois há dois mundos diferentes e (às vezes) complementares: o mundo sensorial ou empírico e o mundo abstrato ou das ideias.


Na Filosofia Clínica há o tópico 3 da tabela da estrutura de pensamento que é o sensorial/abstrato. Neste tópico identificamos o horizonte predominante de onde vem os outros tópicos da estrutura de pensamento do partilhante. Ele pode narrar suas representações de mundo, sua experiência tanto mais por vias sensoriais como abstratas.

Um exemplo de sensorial é quando a pessoa narra sua experiência por palavras que levam em direção aos cinco sentidos, “Nesta semana arrumei todo meu jardim e isso fez um bem enorme para mim. Fiquei mais relaxada e mais feliz comigo mesma. Mas andando no bairro vi algumas pessoas morando na rua, as calçadas cheias de lixo e mal cheirosas e fiquei mais preocupada com esse mundo, para onde ele está indo. Sentei no parque, em um banco perto do lago, e deixei o sol e o vento tocarem em minha pele e logo pensei que a vida é isso aí mesmo, um amontoado de sensações que ora nos deixam mais felizes e ora nos deixam mais tristes”. Esse é um exemplo de narrativa onde a pessoa traz outros tópicos da estrutura de pensamento – o que acha de si mesmo, como o mundo aprece, emoções, pré-juízos – através da linguagem que nos remete aos cinco sentidos. Amar pode ser o toque da pele na pele do outro, ou o caminhar juntos abraçados na areia de uma praia a noite ou saborear um bom vinho em uma noite gelada ao luar enrolados em uma manta.


Mas também a narrativa pode vir de um horizonte abstrato, “Olhando o pôr-do-sol me veio o pensamento de que o ano também está finalizando, de que meus projetos que realizei tiveram muito do que penso de mim mesmo, de minha ideia de como quero viver, de como quero que o mundo pareça pela ideia da liberdade, do respeito pelos outros. Essa noção de respeito a cada pessoa é uma prática que está cada vez menos em moda hoje, em função dessa ideia de individualismo exagerado de que tudo tem que estar centrado em nossos pensamentos e gostos”. Esse é um exemplo do campo da abstração, onde a pessoa, a partir de uma pôr-do-sol sensorial “pulou” para o abstrato e lá fez seus pensamentos liberarem alguns outros tópicos – o que acha de si mesmo, buscas, como o mundo parece, pré-juízos – e é a partir deste âmbito, o abstrato, que ela narra para si e para outros aquilo que está em sua estrutura de pensamento.


Não há um horizonte “certo” ou “errado”, apenas é importante compreendermos em qual desses a pessoa mais navega. E isso também pode variar rapidamente dependendo do lugar, das circunstâncias ou do papel existencial. Quando a pessoa faz um esporte, um jogo de basquete por exemplo, ele exige mais sensorialidade e ali, naquele momento, o tópico sensorial estará mais predominante. Se ela estiver no abstrato enquanto joga, poderá perder a jogada, o ponto. Mas essa mesma pessoa pode estar sentada lendo um romance ou escrevendo uma história. Embora haja o aspecto físico envolvido nessas duas coisas, sua atenção estará mais focada nos pensamentos, nas ideias, no abstrato e não nas coisas em volta dos cinco sentidos. Ela poderá estar absorta em seu mundo das ideias e não ouvir, ver ou perceber ais nada ao redor e se ficar toda hora dando atenção às coisas sensoriais poderá não conseguir efetivar o que estava fazendo.


O que algumas vezes aparece nas terapias é alguém que vive prioritariamente em um desses mundos, tendo que fazer uma ponte comunicativa com o outro mundo, aquele que não é o “seu” mundo prioritariamente. É um Einstein no mundo das ideias sedo pressionado a consertar um cano da pia da cozinha ou um trabalhador braçal tendo que interpretar as ideias de um filósofo qualquer. Às vezes, por questões de valores ou práticas do mundo, é exigido que essas pessoas naveguem mais em outro mundo que não é o “seu” e somente isso já pode ser uma quebra no paradigma do modo de ser dela. Por serem mundos diferentes, muitas vezes as formas, significados e linguagens deles também são muito diferentes.


O filme “O homem que viu o infinito” mostra um pouco disso. O gênio abstrato da matemática, o indiano Ramanujan, tinha todas as suas intuições matemáticas no mundo das ideias, mas foi confrontado a ter que prová-las no “papel”, escrevê-las para poder ser reconhecido. Somente essa diferença de formas de comunicação das verdades matemáticas já foi desestruturante para ele, embora ele tivesse que assim fazer para ser reconhecido como um gênio.


Sensorial e abstrato é um tópico da estrutura de pensamento que traz inúmeras complexidades e diferentes formas de narrativas singulares e um bom terapeuta poderá identificar em qual desses horizontes prioritariamente navega o intelecto ou a malha intelectiva de seu partilhante.

COMPORTAMENTO “CIENTÍFICO”?

Por Fernando Fontoura

Hoje vivemos uma praga: a do cientificismo no comportamento humano. As palavras mágicas são “a ciência comprova que…”. Assisti uma psicóloga comportamental falando sobre o caráter, a personalidade. Ela estava indo bem, citou Aristóteles, as virtudes, a diferença entre ato e potência das excelências humanas. Mas aí veio a frase, “Hoje a ciência comprova que temos algumas virtudes ou traços de caráter que estão em ato, mas que há outras que precisam ser desenvolvidas”. Mas em que a ciência pode ajudar a explicar ou ampliar esse fato – pois isso é um fato – que com os olhos da cara já compreendemos e enxergamos? Isto é óbvio! É só prestar um pouco de atenção e vemos que todos nós temos algumas características de nossa personalidade que estão em ato e outras que têm que ser desenvolvidas. Mas então para que essa retórica da “ciência”? Em que essa frase feita e vazia de sentido pode ajudar?


Pode dar um estatuto de verdade ou de conhecimento para uma frase que não tem esse estatuto. Depois ou antes dessa frase retórica, podemos colocar o que quisermos: “Os marcianos são azuis, pois hoje a ciência comprova que…”; “Hoje a ciência comprova que a crença em algum Deus faz parte da natureza humana”, e assim por diante.
Veja bem, não estou criticando a ciência enquanto ramo do saber, mas aqueles que usam de seu estatuto de verdade ou conhecimento para dar credibilidade “científica” ao que não tem e nem pode ter.

Mas desde quando que a ciência e o pensamento científico das ciências naturais (relação de causa e efeito, determinações futuras a partir de dados do presente ou do passado etc.) podem “explicar” ou “ampliar” o conhecimento do comportamento humano. Bem, podemos colocar um evento histórico, não uma data específica. Seria a partir de quando os asilos daqueles que tinham comportamentos sociais desviantes eram encarcerados para o “tratamento moral” (talvez meados de 1700 ou um pouco antes). “Tratamento moral” era esse o nome mesmo, inclusive com trabalhos de “pesquisa” sobre a “correção” moral desses loucos da cabeça, pirados, lunáticos. E quem “cuidava” desse tratamento moral nesses asilos? Médicos. Não eram “psiquiatras” propriamente ditos, mas ali já começava a ser ter uma visão científica do comportamento humano. Depois em Freud a linguagem científica do comportamento humano ganhou traços robustos. O futuro do comportamento e do caráter ou de traços de personalidade do adulto está determinando pelas suas relações na infância. As conexões necessárias entre o inconsciente, as pulsões e toda parafernália de linguagem psicanalítica dão um verniz forte de cientificidade na linguagem freudiana. Nos dias de hoje as psicologias tenderam a se aproximar dessa linguagem médica-científica e usam dessa retórica de que “a ciência comprova que…” para assuntos nada científicos.


Mas então, qual seria a fonte epistemológica do comportamento humano? Onde poderíamos buscar as informações sobre as relações humanas, tanto consigo mesma quanto com outros?
Hélio Strassburger, terapeuta filósofo clínico a quase trinta anos, responsável pela formação de muitos profissionais terapeutas hoje em dia (eu sou um deles) responde isso. É só lerem qualquer livro dele. Aqui uma pequena lista de suas fontes de investigação sobre o fenômeno humano: Merleau-Ponty, Albert Camus, Martin Heidegger, Umberto Eco, Harold Bloom, Clarice Lispector, Virginia Wolf, Oscar Wilde, Ernst Cassirer, Jorge Luis Borges. Ou seja, filósofos, antropólogos, ensaístas, poetas, escritores, artistas. Esses autores e tantos outros dessas áreas percebem e escrevem o comportamento humano não de formas reducionistas, mas na visão da amplitude, da multiplicidade, da complexidade.

Ao lermos esses autores temos a noção diametralmente oposta da cientificidade do comportamento humano, pois eles não nos dão respostas, definições dogmáticas, fórmulas, mas apresentam o humano com ele é em suas perspectivas, perspectivas de quem vive o humano em sua rede complexa de emoções, pensamentos, significados, sentidos, pré-juízos, valores, intencionalidades…


A filosofia clínica ao estar frente um ser humano não o mira como se estivesse em um microscópio em um laboratório nem através de planilhas ou fórmulas, nem faz ou traz teorias fundamentadas em linguagem científica, mas abre-se para o novo, para o inédito, para o não-escrito e não formulado. E é só assim que se pode perceber o fenômeno da singularidade.

O BEM-ESTAR DO PARTILHANTE

Por Fernando Fontoura

Pela experiência terapêutica, posso tentar fazer um reducionismo explicativo (mas não ontológico nem epistemológico, o que podem ser problemáticos) sobre a questão de que a filosofia clínica procura sempre o bem-estar subjetivo do partilhante. A resposta é sim e não. E isso não é uma contradição, mas um contraste de níveis. Como assim?


O acolhimento terapêutico na filosofia clínica é fundamental, pois fazemos a epoché, ou a suspensão de todos nossos juízos de valor, normativos, éticos, epistemológicos sobre o outro e seu mundo para tentarmos compreendê-lo a partir dele mesmo, de suas proporás linguagens, significados, sentidos. Este momento é do acolhimento e ali o partilhante vai nos mostrar sua questão, seu sofrimento, sua busca, seja o que for. Não cabe julgamentos de valor ou normativos aqui, portanto o filósofo clínico acolhe o outro como ele se mostra sem modificar em nada o que aparece, portanto, sem interpretações ou conselhos. Este é um nível.


O outro nível é quando começamos, junto como o partilhante, a nos movimentar em direção ao objetivo terapêutico que ele estabeleceu como prioridade. Temos, então, a questão inicial a qual acolhemos e o objetivo do qual ele quer chegar. Essa distância, essa diferença entre um e outro é a trajetória terapêutica. Nesta passagem é onde a reestruturação deve acontecer. No entanto, muitas vezes, para não dizer quase sempre, com sofrimento, com dor, com muito esforço, com altos e baixos. Penso muito este momento, esta trajetória, como um processo educativo qualquer, de aprendizado de qualquer coisa. O aprendizado ou o processo educativo não acontece sem esforço e, muitas vezes, sem sofrimento. Por quê? Porque é preciso quebrar modos de ser antigos, padrões de comportamento e/ou pensamento que estão estabelecidos há muito e que terão que ser alterados, modificados, ressignificados, reestruturados em sua totalidade ou em parte. E esse processo de quebrar padrões e estabelecer novos modos de ser, seja no mundo empírico seja no mundo do pensamento, é um processo difícil, que demanda muita energia, e que, muitas vezes, incomoda ou afronta também outros que estão de fora desse modo de ser, ou seja, as outras pessoas que interagem com ela. E também normalmente essas outras pessoas podem querer que as mudanças não ocorram na pessoa, por muitos motivos.


E aqui vai meu reducionismo explicativo sobre esse nível terapêutico, o da mudança de novos modos de ser: o processo terapêutico é a trajetória entre a questão inicial e o objetivo estabelecido pelo partilhante. Essa diferença é um processo de reestruturação de modos de ser, de rearranjar novos modos de ser no mundo e/ou de pensar, portanto é um processo de quebra de padrões autogênicos e reestabelecimento de novos. Isso é um processo que requer esforço, algum sofrimento ou resistência tanto da estrutura interna da pessoa quanto das relações que ela tem no mundo. O bem-estar do partilhante neste processo não é o mesmo do acolhimento inicial, mas de andar junto com o partilhante para enfrentar e passar por essas dificuldades. Na verdade, o bem-estar não está presente neste processo como prioridade, mas no conseguir chegar ao objetivo terapêutico proposto. É por isso que neste momento é que muitas pessoas abandonam a terapia, xingam ou culpam o terapeuta ou o mundo. É aqui também que muitas pessoas são internadas em hospitais psiquiátricos ou vão aos psiquiatras e são intoxicadas com os psicoativos.


É preciso muito cuidado na percepção da interseção terapêutica pelo filósofo clínico quando está neste processo com o partilhante. Cada um tem o seu tempo, sua estrutura, seus processos internos. Não tem uma receita ou manual de como lidar com esse processo de movimento terapêutico. O filósofo clínico terá que estar muito atento à interseção terapêutica e aos movimentos da estrutura interna de seu partilhante. Na filosofa clínica não se faz tentativa e erro, não se faz do partilhante um ratinho de laboratório para ver os resultados depois. Mas se age terapeuticamente com conhecimento dos tópicos da estrutura interna do outro e seus modos de ser, ou seja, os submodos.


Uma vez efetivada essa passagem, o bem-estar do partilhante tem novamente prioridade, pois a terapia tem que funcionar para fazer o partilhante alcançar seu objetivo terapêutico. Não tem sentido passar por essa fase difícil, sofrida e o partilhante ainda se sentir o mesmo com sua dor existencial. Então, uma vez passada essa fase, o bem-estar do partilhante novamente tem prioridade. Mas todo caminho terapêutico não é um “mar de rosas”, pois depois do acolhimento e de compreender o objetivo terapêutico do outro, há de se passar por uma fase de crescimento, de descobertas, de reestruturações que não é nada fácil e que o bem-estar subjetivo não é, naquele momento, o maior objetivo terapêutico. Obviamente que o terapeuta deve tentar sempre finalizar uma terapia da melhor maneira possível para o partilhante, pois ele vai sair dali e viver sua vida.


Muitas nuances poderão acontecer neste processo, por isso, como escrevi acima, isso é um reducionismo explicativo apenas para iniciar a abordar o assunto, mas de nenhuma forma essa explicação esgota as possibilidades.

A ESTRUTURA DE PENSAMENTO EXISTE?

Por Fernando Fontoura

Esta é uma pergunta que ocorre às vezes tanto no ambiente da formação, com alunos e alunas, quanto no ambiente dos próprios filósofos ou filósofas clínicas.
É uma pergunta que tem o viés ontológico, ou seja, do âmbito da explicação da existência ou da realidade em si.


Mas então, a estrutura de pensamento existe? Minha resposta é clara: não! A estrutura de pensamento é uma ferramenta epistemológica para a compreensão do real ou do fenômeno, no caso da filosofia clínica. É uma artimanha metodológica para acessarmos o fenômeno como ele se apresenta. Só existe o modelo epistemológico porque existe o fenômeno, o real.
Portanto, a estrutura de pensamento nem cria o real ou o fenômeno nem tem existência própria em si mesma. Isso quer dizer que há outras formas de modelos epistemológicos para acessar ou entrar em contato com o real, como por exemplo, o inconsciente, os arquétipos e outras categorias psis por aí.


A diferença é que a filosofia clínica (ou em mesmo!) tem a noção de que a estrutura de pensamento é apenas um modelo epistemológico de compreensão do fenômeno e não trata esse modelo como uma substância aristotélica que tem subsistência própria. Isso quer dizer que sabemos que o real e o fenômeno sempre têm primazia. Se algo não se adequar ao modelo, é o modelo que tem que se adequar e se refazer em relação ao real, e nunca o contrário. E é justamente isso que fazem as psis, adequam o fenômeno do outro em seu modelo e querem “corrigir” o outro a partir deste modelo, com se este fosse não a descrição do real ou do fenômeno, mas a verdadeira forma de perceber e lidar com o real. É o inverso disso que faz a filosofia clínica. Para nós, só o terapeuta pode errar. Se o modelo não se adequa ao real, quem errou foi o terapeuta ao perceber o fenômeno. Não podemos dizer, como as psis e o buscador do Google dizem, “você quis dizer…”. Não podemos “corrigir” o fenômeno, e é por isso que trabalhamos com a descrição ao invés da intepretação.


Mas voltando à questão do tema proposto aqui, a estrutura de pensamento é um modelo epistemológico de acesso e percepção do fenômeno como ele aparece e só tem sentido o modelo a partir do fenômeno. Obviamente que digo isso nas formações, “O tópico pré-juízo não deixou que o indivíduo efetivasse essa ação” ou “o tópico emoção ajudou ele a se expressar melhor”. São frases que dão existência e subsistência de substância a esses dois tópicos que mencionei. É como dizer que o inconsciente contra meus pensamentos ou emoções. No entanto, como falo para os alunos e alunas, sei que quando falo assim estou usando um recurso pedagógico metafórico, pois na realidade, não há nenhum tópico deixando ou permitindo ou controlando a mim mesmo ou a qualquer outro indivíduo.


Portanto, o que vem em primeiro lugar, sempre, é o indivíduo. Não a estrutura de pensamento ou qualquer outro modelo epistemológico existente em si mesmo, pois eles não existem por si. A estrutura de pensamento só tem sentido enquanto um modelo epistemológico a partir da existência objetiva de um indivíduo e dos fenômenos que ele narra. Fora isso ela é uma metáfora pedagógica e quem quiser “enquadrar” você uma dessas fantasias epistemológicas para a partir dessas fantasias “corrigir” o real, ou seja, você, agarre sua carteira e corra para a direção oposta.

O EIXO DE TODA EXPERIÊNCIA POSSÍVEL

Por Fernando Fontoura

Como terapeuta já ouvi algumas vezes frases como essa, “Não mudou nada, mas mudou tudo”! Ou “Tudo está exatamente igual, mas ao mesmo tempo, está tudo diferente”! Também já ouvi o contrário, “Mudei tudo, mas tá tudo igual”!


Como posso compreender isso à luz da Filosofia Clínica?


Em primeiro lugar, vamos admitir de pronto que não há contradição nestas frases. Nos afastemos de Aristóteles e sua definição de contradição, pois não estamos neste nível de compreensão. Em filosofia clínica trabalhamos com a perspectiva de níveis. Essas frases acima mostram que há diferentes níveis na estrutura interna das pessoas. Como assim?


Bem, em segundo lugar, lembremos que a filosofia clínica tem três eixos principais, que são os exames categoriais, a estrutura de pensamento e os submodos. Esses três eixos se interrelacionam formando uma rede ou um sistema onde há várias faces ou perspectivas. Cada uma dessas faces ou perspectivas podemos considerar como um nível ao mesmo tempo diferenciado dos outros mas interrelacionados com eles. É um modelo de sistema complexo, como um tabuleiro de xadrez, onde cada peça tem suas regras de movimentação mas ao mesmo tempo estão todas interligadas com as possibilidades de movimentação tanta das minhas próprias peças quanto das do meu adversário. O xadrez é um exemplo de sistema complexo.


Muito bem! Então como podemos compreender as frases acima citadas? Partimos de um pré-juízo fundamental em filosofia clínica: a estrutura de pensamento é o eixo de toda experiência possível (frase de Mário Luís Pardal em seu livro Filosofia como Terapia). Ou seja, tudo passa ou começa ou termina na estrutura de pensamento. É neste horizonte que as alterações terapêuticas acontecem. É quando muda ou altera ou movimenta a estrutura interna de cada um que realmente há as alterações terapêuticas que poderão ser efetivadas em diferentes modos de ser.


Eu fiz um vídeo sobre este tema onde dou mais exemplos, e ele estará no ar no canal do YouTube da Epoché (https://www.youtube.com/channel/UCgfjeX35uqEr4gZZ6MdIqww ). Mas aqui, de forma mais resumida, posso salientar que uma pessoa pode estar efetivando seus modos de ser exatamente iguais como estavam sendo efetivados, pode estar trabalhando, cuidando dos filhos, saindo com amigos e mantendo toda a rotina ou práticas existenciais no mundo da vida como antes. Mas se algo alertou em sua estrutura de pensamento, mesmo que nada tenha mudado em suas práticas de vida ou modos de ser, “tudo” muda. Essa é a compreensão de frases como “Nada mudou, mas tudo está diferente” ou “nada mudou, mas tudo mudou”. Onde “nada” mudou? No nível dos modos de ser no mundo, nas práticas diárias ou rotineiras. Mas, por alguma razão, como por exemplo, um amor repentino, um insight interno, a estrutura interna fez uma revolução, uma alteração significativa e, a partir disso, “tudo” mudou. A vida se torna mais leve, mas clara, mas “colorida”, mas significativa etc. Mesmo que “nada” tenha mudado na rotina dos modos de ser, “tudo” mudou.


O contrário também acontece. Às vezes, por força da pressão da vida, das coisas “externas”, alguém tem que efetivar mudanças em seu modo de ser, em suas práticas do dia-a-dia e, quem vê essa pessoa de fora, pensa que ela “mudou” muito, que se “adaptou” às mudanças impostas pela vida. Porém, essa pessoa, internamente em sua estrutura, não realizou as alterações que acomodem essas mudanças práticas ou nos seus modos de ser. E ainda sofre, se angustia com “as mesmas coisas”, embora ela tenha mudado na prática. Mas se não mudou na estrutura interna, “nada” mudou. Algumas vezes só pessoas próximas dela é que saberão que ainda está sofrendo e que não alterou ainda suas emoções, perspectivas de mundo, o que acha de si mesma etc. Às vezes, somente seu terapeuta poderá saber disso. Pois ele tem a perspectiva de sua estrutura interna.


É por isso que em filosofia clínica a estrutura de pensamento é o eixo fundamental da terapêutica, pois é lá que, no final, acontecerá – ou não – as mudanças significativas que efetivarão novos modos de ser tanto externos quanto internos.

A Boa Loucura!

Por Fernando Fontoura

Em A Linguagem da Loucura, o antipsiquiatria e antipsicanalista David Cooper escreve o objetivo pelo qual escreve o livro,


“Pela redescoberta do orgasmo e da loucura (incluindo a “loucura” dos artistas) enquanto necessidades radicais para a transformação das pessoas.”


Portanto, a loucura da qual ele escreve é


“[…] a loucura que está mais ou menos presente em todos nós, e não aquela que pela diagnose recebeu o batismo psiquiátrico de “esquizofrenia” ou qualquer outro rótulo inventado pelos agentes psico-policiais especializados da fase final da sociedade capitalista.”


Para este autor,


“A loucura é um movimento para fora do familiarismo em direção à autonomia. É este o verdadeiro “perigo” da loucura e a razão da violenta repressão a que está sujeita.”


Outro autor, Erasmo de Roteradm escreveu o Elogio da Loucura. No papel existencial da própria loucura ele escreve o texto em primeira pessoa, a própria Loucura falando sobre si mesma.


“Embora os homens [seres humanos] costumem ferir a minha reputação e eu saiba muto bem quanto o meu nome soa mal aos ouvidos dos mais tolos, orgulho-me de vos dizer que esta Loucura, sim esta Loucura que estais vendo é a única capaz de alegrar os deuses e os mortais.”


Continua a própria Loucura,


“Nascida no meio de tantas delícias não saudei a luz com o pranto, como quase todos os homens [seres humanos]: mal fui parida, comecei a rir gostosamente na cara de minha mãe”.


Duas coisas chamam a atenção neste texto: 1. O título que dei a esse escrito e 2. O que falam da loucura estes dois autores.


A primeira, o título, já é uma ofensa à própria palavra loucura, pois tenho que qualificá-la como “boa” para doer tirar dela todo o mofo das qualificações não-boas que ela recebeu. Os gregos chamavam de mania ou moria, mas com isso queriam dizer desrrazão. A norma era a razão, a balança era o logos e a comparação era com os que não tinham a potencialidade da razão, os animais irracionais. Tudo de bom era racional e todo racional era bom (seguindo alguns critérios, dependendo de cada escola filosófica). Agir com a razão era seguir a natureza da qual nos foi dada enquanto seres que somos. Agir diferente disso era uma ofensas à própria natureza e a si mesmo enquanto ser de natureza racional. Mas era pedagógico o erro, poderia aprender e aperfeiçoar o uso da razão e tornar-se um não mania, um não-louco, um ser, então, sociável, capaz de aproveitar as boas racionalidade da vida e seus efeitos, como as boas paixões.


Mas de alguma forma, o “louco” estava fora, à margem e precisava ser “corrigido”. Então quando coloco “boa” como adjetivo da loucura estou querendo dizer que os gregos não estavam completamente certos, ou, pelo menos, enviesados pela seus pré-juízos de normalidade e correção enquanto aquilo que é “natural”. E loucura não é natural, portanto não pode ser bom (embora nem tudo o que seja natural é bom!).


Por isso preciso ainda hoje colocar o “boa” para qualificar a loucura como algo bom, pois ela carrega a marca do mal, do errado, do antinatural.


E no 2. O que falam da loucura estes dois autores, é, além da qualificação que dou no título, estabelecer que na verdade a loucura é “natural” e sempre foi boa. Que ela provoca rompimentos necessários, que leva a limites de alegrias e prazeres que jamais as “boas paixões” racionais levarão. Que o caminho da loucura, embora de rompimento com o natural, que é chorar quando se nasce, não é um descaminho, mas uma alternativa “normal” e mais “natural” do que aquilo estabelecido pelas “leis” naturais da razão e da convenção.


Não o rompimento comedido, que passa pela observação atenta de todos os pontos, de formar hipóteses racionais e equilibradas para cada ponto observado e que experimenta com calma e cuidado cada hipótese antes de tentar efetivar alguma.


Obviamente que só a filosofia clínica pode aceitar pessoas que rompem assim com os padrões, com as normas, com as “leis” naturais ou sociais e não considerá-las “loucas” más”, que necessitam estar fora de circulação e de uma “correção” moral, seja por uma instituição ou por algum psicotrópico aditivo que envenena e intoxica o cérebro, a mente e os pensamentos.
Este é um assunto fascinante que Hélio Strassburger, filósofo clínico e professor de cursos de formação em filosofia clínica pela Casa da Filosofia Clínica, já colocou em livros como Pérolas Imperfeitas: apontamentos sobre a lógica do improvável.


Muito mais poderia falar sobre isso aqui, mas vou fazer um vídeo para o canal onde posso ter mais espaço para um desenvolvimento mais amplo sobre o assunto.


Até lá, quem sabe, reconheça, descubra e entre em contato com sua loucura, aquela que nas escolas levam as crianças a serem diagnosticadas como TDAH. A anti-regra é o primeiro degrau da autonomia, da loucura de ser você mesmo contra todo o sistema de normatização e uniformização. Ah, as escolas, instituições caras à normatividade e uniformização de pensamentos e comportamentos. Quanto ainda precisam avançar para deixarem de serem carcereiros de jovens “desiquilibrados”!

TERAPIA FUNCIONA?

Por Fernando Fontoura

Uma das frases que ouço muito, ainda mais nas aulas de formação, é que “até é importante fazer terapia, mas ela não tem um resultado objetivo, muitas vezes não dá para saber se realmente “funciona””?
Então deixa eu afirmar uma coisa: terapia da filosofia clínica funciona! E qualquer terapia deveria “funcionar”.


Mas o que é “funcionar”? E quais os critérios para a terapia da filosofia clínica “funcionar”?


Primeiro, “funcionar” é atingir um objetivo pré-estabelecido. A filosofia clínica é uma técnica terapêutica, sem adição de conteúdos normativos ou de julgamentos de valor antecipados, portanto ela não é uma terapia moral, mas uma técnica vazia de conteúdo esperando este ser preenchido pelo partilhante. E o primeiro “conteúdo” que o partilhante “preenche” é o objetivo de sua caminhada terapêutica, seja qual for: casar, separar, busca de novo trabalho, quebrar padrões de modos de ser, criar novos modos de ser, tornar-se uma pessoa melhor para si, tornar-se uma pessoa melhor para os outros etc. Portanto, há uma “linha de chegada”, um objetivo claro (às vezes mais que um, às vezes vai se descortinando no caminhar terapêutico, mas aparecerá).

Então a terapia vai “funcionar” se o partilhante se sentir satisfeito na busca de atingir seu objetivo terapêutico, estabelecido por ele mesmo. O nível do “funcionar” vai depender de cada partilhante em relação ao seu objetivo. Às vezes é necessário chegar ao desfecho completo, às vezes parte do desfecho já está bom e ele sai da terapia para completar sua jornada com “autonomia”, experienciando sua aventura existencial. E depois volta, se for o caso, para a partilha. Há vários níveis de “funcionar”, mas a terapia da filosofia clínica se compromete a chegar lá junto com o partilhante, seja onde for. Ele tem que ter ou sentir o benefício de sua dedicação de horas e dinheiro investido com o terapeuta e esse benefício vem com a consecução de seu (ou seus) objetivo (ou objetivos). Não interessa o tempo que isso levar, mas, por minha experiência, se o terapeuta estiver com a escuta “afinada”, a compreensão do ou dos objetivos do partilhante e o caminho a ser percorrido acabam por serem mais rápidos do que muitos “coachings”. Isso porque a perspectiva ampla de horizonte existencial que a filosofia clínica utiliza em sua metodologia descortina caminhos, descaminhos, vales e precipícios de uma forma clara (fenomenológica).

O terapeuta da filosofia clínica tem a seu dispor todo um “ferramental” de submodos para compreender e fazer a construção compartilhada com seu partilhante. É preciso estudar, estar atento na escuta e manter-se na metodologia. Aí entra o outro aspecto do que estou falando aqui, ou seja, quais são os critérios para a terapia da filosofia clínica funcionar.


Em primeiro lugar, fazer uma boa formação. O que é uma “boa” formação? Aquela que se mantem dentro do horizonte da própria filosofia clínica, sem buscar “penduricalhos” metodológicos ou epistemológicos para ela. Tudo o que o terapeuta precisa para praticar a filosofia clínica está em sua própria metodologia, qual seja, exames categoriais, tópicos da estrutura de pensamento e submodos. São apenas três eixos, mas que abrangem uma combinação quase infinita de possibilidades de ser terapeuta e de acolher a singularidade.


Em segundo lugar, e, para mim, a parte fundamental, é realizar uma boa supervisão de estágio. O que é “boa” aqui? É ser avaliativa dentro dos parâmetros da própria metodologia. Parece que há uma confusão entre o acolhimento da formação e a supervisão de estágio. Como professor da formação, tenho a postura terapêutica neste espaço de aprendizagem, pois ali, apesar de não ser uma relação terapêutica em si, é necessário um certo eixo terapêutico dos professores, pois é uma formação de desenvolvimento pessoal, e não de culinária ou mecânica. A formação mexe já diretamente em níveis do próprio ser dos alunos, em diferentes níveis e intensidades. Então, há a possibilidade de haver mudanças pessoais nos modos de ser ou pensar dos alunos durante a formação, e o professor, que para a Epoché deve ser terapeuta atuante, deve estar atento a isso e acolher esses movimentos dos alunos. É, portanto, um ambiente tanto epistemológico – de aprendizado – quanto um ambiente terapêutico mitigado.


A diferença é que a supervisão tem um objetivo avaliativo, pois dali vai sair (ou não) uma pessoa apta a cuidar das questões existenciais de muitos outros seres humanos. O objetivo maior da supervisão é manter a mensagem libertária e emancipadora da filosofia clínica a partir daquele postulante a terapeuta. Não é dar um “certificado” ou “fabricar” terapeutas à revelia da metodologia nem à parte dela. A Epoché quer terapeutas da filosofia clínica que levem a mensagem originária da terapia, que é, como escrevi acima, libertária e emancipadora, e não qualquer outra mensagem. E neste espectro, há uma avaliação diretiva sobre o exercício terapêutico do supervisionado. Não somente para manter a mensagem da filosofia clínica, mas para o próprio postulante a terapeuta poder exercer sua atividade com bases sólidas às quais não irão tremer ou ruir por qualquer “abalo” no decorrer da experiência terapêutica.


O tempo mínimo de estágio é de seis meses, mas pode ser que não pare por aí, se a avaliação do supervisor compreender que o ser terapeuta do supervisionado não está pronto. Quando vejo pessoas formadas e já atuantes em filosofia clínica com fragilidades na expressividade do método ou com relatos de atendimentos voltados para outras metodologias ou teorias que não a filosofia clínica, vejo ali a fragilidade da supervisão.


Sempre há acolhimento em filosofia clínica, em todas as fases de interação com ela, mas a supervisão é um ambiente de avaliação, onde faz parte do acolhimento ser honesto sobre o aperfeiçoamento ou não do ser terapeuta do estagiário. Se você pensa somente em “ganhar” um certificado de terapeuta ou de “formalizar” um caminho epistemológico que iniciou na formação, não venha fazer estágio com a Epoché. Estamos interessados em pessoas, não em “formalizações” vazias.


Nunca podemos garantir o sucesso do terapeuta formado por nós, pois os caminhos existenciais circunstanciados pela historicidade de cada um é sempre uma porta entreaberta para vários caminhos, mas para o início desta caminhada garantimos que funciona, pois quem se forma pela Epoché sabe que passou pela prova de “fogo” daqueles professores que ajudam a robustecer o ser terapeuta de seus supervisionados.


Se você fizer terapia com um filósofo clínico que tenha tido uma boa supervisão (mesmo que a formação não tenha sido tão “boa”), ele provavelmente irá fazer uma partilha terapêutica que funciona, seja qual for o objetivo ou o caminho a percorrer.