PRÁTICA DA FILOSOFIA CLÍNICA

Por Fernando Fontoura

“Nesse sentido, a nova abordagem possui uma representação diferenciada do fenômeno humano; as pessoas passam a ter nome, sobrenome, uma história de vida singular, linguagem própria, expressividade peculiar, estabelecendo um abismo com as lógicas da tipologia, da classificação desumana dos manuais psiquiátricos, os quais, ao oferecer diagnósticos, prognósticos, curas, normalidades, destituem a pessoa de seu ser sujeito em ação.” – Hélio Strassburger em Filosofia Clínica: anotações e reflexões de um consultório

Pode ser que muitos que não sejam terapeutas e leiam as linhas acima se perguntem, meio frustrados ou estupefatos pela afirmação feita, “Mas não é assim com qualquer terapia séria? Não é assim que todas fazem? Como poderia uma terapia ser diferente disso? Então, qual é a vantagem da filosofia clínica ao afirmar tudo isso?”

Vamos começar pelo maior contraste, já que, às vezes, o mais próximo é o mais difícil de enxergar as nuances. Hélio já coloca ali uma divisão diametralmente oposta entre a filosofia clínica e a psiquiatria que se diz médica, aquela que usa do manual diagnóstico e estatístico de doença mental (DSM) para rotular, tipologizar, classificar e estigmatizar as pessoas em nome de uma tal cura medicamentosa para uma certa doença mental biológica. Vamos considerar que quando você vai a um médico-biológico (impressionante eu ter que escrever dessa forma!) e diz que está com uma dor aguda na parte debaixo da barriga, do lado direito, além das perguntas frequentes de alimentação, acidente ou outra neste sentido, ele não pergunta sobre sua vida pessoal ou sobre como você tem se comportado no trabalho ou com sua esposa. As perguntas são direcionadas ao objeto do reclame da dor e, logo em seguida, exames objetivos feitos por aparelhos que efetivamente medem, “veem”, pesam, o suposto órgão que está sendo exposto a dor. As doenças associadas ao órgão de então, se não estão fora do catálogo médico, existem, são reais, são visíveis tanto sua ação quanto o mal que fazem no tal órgão. Uma biópsia pode ser necessária, e tanto os aparelhos quanto o tecido ou parte do órgão são realmente acessados e o resultado vem em forma de objetividade.

Nada disso acontece na psiquiatria médica. O tal médico-psiquiatra não precisa (se não quiser) nem olhar para você, nem saber seu nome, nem onde mora, nem suas relações sociais e precisa somente que você relate seu comportamento e preencha alguns requisitos com nenhum valor objetivo médico, como o quesito “ele (ou você mesmo) fala em excesso?” Sendo excesso exatamente o quê? Ao mesmo tempo que o médico-psiquiatra tem a “postura” de um médico que ouve a queixa e concentra-se na procura de causas objetivas, o médico-psiquiatra ouve a queixa e não tem nenhuma base objetiva da qual possa se apoiar. Mas não precisa, porque o DSM tem ali as “dicas” de como e onde “enquadrar” aquele comportamento em sintomas de uma mente doente, que sofre de um desequilíbrio químico em tal ou tal parte do sistema nervoso. Só que a questão que o paciente do médico-psiquiatra traz não é corporal, mas comportamental. Sendo assim, não devia, ao contrário de seu “guru” médico-biológico, saber mais e mais dos contextos sociais e de relacionamentos em que seu paciente se situa? Mais ainda se for uma criança? Não, é justamente o contrário o que acontece.

Mesmo o médico-biológico hoje em dia sabe que inclusive algumas (ou muitas) doenças orgânicas têm a ver com o relacionamento que o paciente tem com seu meio físico. Antropologistas já disseram isso há muito tempo. Como então, o médico-psiquiatra, pode ser menos contextualista-social do que um médico-biológico? Pois para essa abordagem psiquiátrica o ser humano não precisa de nome, de sobrenome, de história pessoal, linguagem e expressividades próprias. Ele é apenas um corpo onde se comporta de forma anormal devido a um enguiço no seu sistema nervoso. Até meu mecânico quando levo o carro na oficina pergunta por quais estradas andei antes de avaliar meu carro e depois de ouvir o que tenho a reclamar de seu funcionamento.

Neste livro – Filosofia Clínica: anotações e reflexões de um consultório – de forma leve, com os requintes de um experiência “pura” em filosofia clínica, ou seja, Hélio nunca usou nenhum outro suporte metodológico além da própria filosofia clínica em toda sua frutífera carreira (que ainda continua de vento em popa!), ele mostra os resultados práticos do seu Ser Terapeuta onde atendeu em hospitais psiquiátricos, em grandes e pequenas comunidades do Brasil afora, em grandes e pequenas empresas, escolas e qualquer outro lugar que você possa, porventura, ter em mente. Ele é a prova da eficácia robusta de metodologia terapêutica da filosofia clínica que foi estruturada por Lúcio Packter no início dos anos 90. A mesma filosofia clínica de outrora, aplicada diligentemente, com cuidado, atenção e carinho tanto ao método quanto àquele que entra em contato com a filosofia clínica.

Publicado por epochefilosofiaclnica

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