A escuta compreensiva na clínica filosófica

Por Paulo Alves Filho

Ao iniciar essa análise faço um convite a você, caro leitor. Partirmos da noção de singularidade como pressuposto para que possamos, juntos, seguir no progresso deste estudo.


De maneira breve a singularidade, na Filosofia Clínica, é um conjunto de fenômenos que compõem o partilhante e sua medida de relação e interseção com o mundo interno, externo e, também, com outras pessoas. O esperado é que o Filósofo Clínico mantenha- se despido de seu juízo e valor pessoal. Por sua vez, essa atitude propicia um ambiente onde aquele que compartilha sua história pode ser conhecido através de seus próprios critérios. A escuta realizada na prática terapêutica prevê a literalidade, ou seja, aquilo que é dito deve ser compreendido e não interpretado. O ser humano singular é o mar por onde o filósofo clínico navega. É dentro das condições apresentadas por este mar que se manifesta a Filosofia Clínica.


Articulando os elementos citados acima cria- se uma atmosfera que protege o partilhante. Constitui-se o impeditivo do acolhimento através de determinados grupos ou conceitos provenientes de outras áreas do saber, como no caso da medicina, que, por sua vez, adentram a linguagem social. Mais do que isso é importante saber de dentro da visão daquele a quem escutamos qual horizonte de significados são atribuídos a tais conceitos. Institui-se a preservação ao partilhante em relação ao próprio terapeuta, pois ele deve estar afastado de si mesmo. Sua postura se assemelha a um livro em branco, onde a história que o preencherá está no escutado. A terapia na Filosofia Clínica é no tempo e dentro dos limites demarcados pelo partilhante. Fazendo com que, por vezes, o ambiente terapêutico torne-se um lugar confortável para se falar de conteúdos que podem não ser, necessariamente, agradáveis.


A importância do conteúdo trazido aos encontros se dá no contexto em que é ele o fio condutor quem transporta o método e para entender aquele que se entrega na fala são necessárias duas fases de tradução: na primeira o terapeuta ouve o conteúdo e o traduz aplicando a metodologia e na segunda o que foi escutado é traduzido de volta a linguagem do partilhante e devolvido para que ele diga se está correto ou não. O respeito a essa forma de cuidado no amparo aos fenômenos humanos é fundamental para estabelecer a interseção entre terapeuta e partilhante, para que ele se sinta à vontade e para que a terapia aconteça dentro de seus moldes.

(texto originalmente publicado na Revista da Casa da Filosofia Clínica em https://casadafilosofiaclinica.blogspot.com/search/label/Revista%20Casa%20da%20Filosofia%20Cl%C3%ADnica )

Publicado por epochefilosofiaclnica

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